Depoimento de uma jovem de 37 anos que enfrentou o Câncer de Mama
O presente texto não tem a menor intenção de provocar no leitor qualquer tipo de temor, asco ou sentimento similar. Apenas se presta a despertar o pensamento acerca de como uma feliz “curiosidade” pode salvar a vida de alguém, no caso, a minha.
Em outubro de 2003, resolvi fazer uma bateria de exames laboratoriais, haja vista que fazia tempo que não enfrentava as salas médicas. Exames feitos, resultado satisfatório, ótimo, não? Então, pra mim, não! Resolvi refazer os exames em outro laboratório.
Novamente em perfeito estado de satisfação para minha idade, na época com 36 anos, e há mais de dez sem praticar qualquer atividade física, ou seja, vida sedentaríssima. Na minha lista de exames, ficou faltando apenas o “Papa Nicolau”, que seria feito após passar meu período menstrual.
Nesse hiato, teclava com um amigo virtual que é médico, que me sugeriu submeter-me a uma mamografia. É claro que o chamei de louco! Oras, eu tinha apenas 36 anos e a mamografia é exame para mulher com mais de 40! Não iria sofrer à toa, pois aquela máquina aperta a gente.
Ele insistiu por diversas vezes, argumentando que a medicina estava revendo a idade para a primeira mamografia. Em todas as vezes me neguei em concordar com Marco. Mesmo porque, todos os meses eu fazia o auto-exame nas mamas e nunca senti nada de anormal. Assunto encerrado!
Quando fui colher o material para o exame “Papa Nicolau” solicitei à profissional de saúde um pedido de mamografia. Salientei que tinha 36 anos e que também nunca tinha percebido qualquer problema nas mamas.
Fui marcar o exame e cerca de um mês depois, fiz o famigerado exame. Um, não, três. Não pensei mais a respeito. Isso ocorreu em outubro de 2.003.
No dia 03 de dezembro de 2.003 estava no trabalho, quando recebo um telefonema do posto de saúde dizendo que lá comparecesse para saber o resultado da mamografia. Nesse contato fui informada de que havia ocorrido uma alteração no exame.
Trabalhava a cerca de duas quadras do posto de saúde. Saí correndo para lá.
Ao chegar à sala das enfermeiras, pálida e assustada, mostraram-me o resultado e me disseram que haviam aparecido na minha mama esquerda algumas micro-calcificações. E eu lá sabia o que isso significava?
As enfermeiras me acalmaram dizendo que não era raro surgirem essas micro-calcificações e que eu teria de fazer uma ultra-sonografia da mama como exame complementar.
Peguei a requisição para o exame, agendando apenas para o dia 21 de janeiro de 2.004. Fui fazer o ultra-som. Estava sozinha, tranqüila, descansada, tinha voltado de viagem por aqueles dias...
Estava na sala e um médico começou a fazer o exame. E eu? Tranqüila... De repente, o médico chama outro colega, este chama outro e quando dei por mim, a sala estava repleta de médicos. Cochichavam entre si, mas como eu não tinha a menor idéia do que acontecia, permaneci tranqüila.
Encerrado o exame recebi um encaminhamento médico escrito: MASTOLOGIA URGENTE! Perdi o chão! Não sabia para onde me dirigir. Entrei em um corredor errado, pensando que me dirigia à ginecologia do hospital, quando então uma auxiliar de enfermagem, percebendo meu desespero, conduziu-me pelo braço até meu destino correto. Minha cabeça foi a mil. Não estava entendendo nada. Eu ali sozinha, sem ter noção do que acontecia...
O ginecologista me chamou para a consulta. Olhou os exames, me examinou e foi bem direto comigo: essas micro-calcificações podem ser benignas ou não. Em não sendo, trata-se de câncer! O que causou mais curiosidade no meu caso foi que, não há caso de câncer de mama na minha família. Vasculhei quatro gerações e não há notícia da doença em qualquer mulher pois o CA de mama é mais comum de forma hereditária.
Quase desmaiei. Senti que a forma pela qual fui informada da possível doença tinha sido grosseira ...
Naquela mesma fatídica tarde teria de ser submetida a outro ultra-som, mais profundo e específico. Deveria voltar lá para fazer uma punção. Retirariam um pequeno volume do material para fazer o exame patológico.
Voltei no dia marcado. Foi feita a punção (retirada de um pequeno volume de material através de um tipo de agulha. Tempos depois fiquei sabendo que o material retirado fora insuficiente para análise).
Eu ficaria esperando contato dos médicos para saber o resultado daquele procedimento. Era para eu me tranqüilizar que tudo havia corrido bem.
Dias depois recebi comunicação de que no dia 10 de fevereiro de 2004 deveria retornar ao hospital para fazer uma mini-cirurgia (retirada de novo material para ser submetido à biópsia), pois nada havia sido acusado na punção (pelos motivos acima já declinados, mas que me foram omitidos). Informaram-me que era uma cirurgia ambulatorial e não muito séria.
O procedimento era o mesmo de uma cirurgia qualquer, apenas não seria entubada e nem tomaria anestesia geral. Três médicos na sala, mais uma enfermeira e a minha acompanhante.
Foi só nesse momento que o mundo começou a desabar sobre minha cabeça. Chorei muito... A anestesia não fazia efeito... Até que o médico disse-me: “- Mirian, o procedimento é simples, mas você precisa ajudar”. Engoli o choro e fiquei quietinha... Foi retirado o material e no momento em que foram dar os pontos comecei a sentir dores. O efeito da anestesia havia acabado... Nova dose de anestésico...
Acabado o procedimento fui informada pelo médico de que o material retirado era suficiente para a extinção da micro-calcificações. Ainda na maca, a enfermeira mostrou-me o “cisto”. Era do tamanho de um copinho de café! Assustei-me. Olhei atrás de mim na maca e me assustei mais ainda: os campos cirúrgicos lavados do meu sangue.
O material foi encaminhado à patologia.
Fui orientada a ir para casa e aguardar de 40 a 50 dias outra chamada do hospital para saber do resultado da biópsia, mas que eu não me preocupasse, pois o que fora retirado seria o suficiente para a minha cura.
No dia 03 de março pelas 21 horas recebi um telefonema dizendo que comparecesse ao hospital para saber o resultado da biópsia. Ora, havia se passado bem menos tempo do que haviam me dito. Evidentemente que já sabia o que tinha ocorrido: estava com câncer mesmo e que a cirurgia a que tinha sido submetida não havia resolvido.
Sozinha em casa me desesperei. Comecei uma jornada de telefonemas a todos os contatos que conhecia no hospital para saber o resultado da biópsia. Queria saber do resultado antes de chegar a sexta-feira.
No dia seguinte, de manhã, tinha horário na minha psicoterapeuta. Expus meus medos, chorei muito, mas estava determinada e enfrentar de frente o que tivesse que acontecer.
Já no trabalho recebi telefonema de um contato me informando que, realmente, eu tinha câncer. É estranho o que senti: alívio! O que mais me atormentava era a incerteza. “Se eu tenho câncer, então vou vencê-lo”, foi esse o meu pensamento desde o início.
No dia marcado para “abrirem” o resultado do exame, fui ao hospital. Já sabia do resultado. As duas médicas disseram-me que teria que ser internada para, durante a semana, fazer os exames pré-operatórios. Porém, a notícia da urgência da internação, me assustou muito. Pensei: estou morrendo! As médicas me disseram que esse tipo de procedimento era normal e que quanto antes fosse operada, seria melhor. Uma das médicas me disse que o tumor era maligno, um dos piores de serem curados caso o diagnóstico fosse verificado tardiamente, mas no estágio em que se encontrava, a cura era certa, guardadas as devidas proporções.
Não ouvi mais nada. Apenas pensava na minha mãe. Como dizer isso a ela. Uma mulher de 80 anos, que já havia perdido uma filha com câncer nem dois anos antes e com outro filho com suspeita de câncer no estômago!
Recompus-me e apenas pedi às médicas que me dessem uma semana para resolver minha vida, dar a notícia à família e amigos e organizar minha vida profissional. Respirei fundo e novamente pensei: “vou encarar isso!”
Saí perturbada do hospital, mas no decorrer da semana fui me fortalecendo. Informei minha mãe do ocorrido e pedi que ela ficasse tranqüila, porque eu também estava tranqüila. Até hoje não sei de onde tirei tanta força para dizer isso a ela. Sei, sim: Papai do Céu me carregou no colo!
Disse-lhe que iria ser internada em 15 de março e ficaria aguardando a operação, provavelmente nos próximos quinze dias. Alertei que não queria ninguém no hospital porque era só pra fazer os exames. Fui atendida. Não queria minha mãe naquele ambiente, sofrer inutilmente com a minha dor. Só eu precisava passar por aquilo. Poupei-a e acredito que fiz o correto.
No dia marcado duas amigas me acompanharam. Após tranqüilizá-las, despedi-me e fiquei sozinha. Foi quando, então, pude observar o aspecto da enfermaria: mulheres sem cabelos devido à quimioterapia; outras sem mama se movimentando com soro pelo corredor, cumprindo o pós-cirúrgico. Eu estava lá, doente, mas não me sentindo doente!
A maratona de exames durou pela semana. Passei por junta médica, onde diversos médicos estudavam caso a caso. Após me examinar e me deixar mais tranqüila o responsável me disse: “- Faremos uma quadrantectomia (retirada de um quarto da mama), sua cirurgia será um sucesso e a senhora será curada!”. Se antes eu já estava confiante, a partir daquele momento ficou decidido na minha cabeça: “essa doença chegou sem pedir licença, então ela vai embora rapidinho, da mesma forma”.
Entreguei minha vida nas mãos de Deus e na dos profissionais.
Disse aos médicos que fosse feito o que tivesse que ser feito. Se tivesse que tirar a mama inteira, que fosse tirada. Se tivesse que tirar as duas, que fossem tiradas. Eu apenas queria viver! Decidi que iria viver!
No último dia dos exames fui informada que minha cirurgia seria antecipada. Pulei de felicidade! Quanto antes se resolvesse, mais rápido estaria livre do pesadelo.
Fui operada, tudo correu perfeitamente bem e voltei corada do centro cirúrgico, acredita? Quando recebi alta fui informada de que não seria preciso tomar quimioterapia, apenas radioterapia. Outra vitória.
Fui para casa da minha mãe me recuperar, por ordem dela, pois eu queria mesmo era voltar para minha casa. Como sempre fui uma mulher independente e me sentia curada, acreditava que daria conta da recuperação sozinha.
Enfim, em menos de três meses, foi detectado e exterminado o meu tumor. Fiz as seções de radioterapia, que são indolores e não há qualquer contra indicação. Quinze dias depois de ter sido submetida à cirurgia já estava trabalhando e com toda força de vontade do mundo.
Fui medicada e depois de nove meses a medicação foi suspensa. Apareceram sintomas de menopausa precoce, como os calores, regras descontroladas e mal estar freqüente. Após a suspensão do remédio, voltei a ter uma vida normal, normal mesmo!
Sei que ainda tenho três anos e meio de monitoramento médico pela frente, mas me sinto curada totalmente. Faço todos os exames periódicos e continuo a confiar nos profissionais que cuidam de mim.
A força que tive para enfrentar tudo devo à experiência adquirida pelas várias situações que passei em decorrência da doença de minha irmã que faleceu de câncer e principalmente a minha fé em Deus, porque me deu serenidade para esperar e acreditar que tudo daria certo no final.
Nunca levantei os olhos para o céu e perguntei: por que eu? Sempre soube que Deus estava do meu lado, sentia e sinto a presença Dele em todos os momentos e foi isso que me curou efetivamente.
Credito minha cura, também, aos seguintes motivos:
Diagnóstico precoce da doença; jamais pensar que iria morrer pela doença; meu bom humor; apoio total da minha mãe, de alguns irmãos, de alguns amigos, dos meus chefes e de alguns colegas de trabalho; profissionalismo imensurável dos médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, corpo técnico da radiologia e do laboratório da patologia do Hospital; minha disciplina em fazer todos os exames solicitados; reação do meu organismo (uma dádiva divina a todos os seres humanos, mas temos que saber usufruir).
Hoje levo vida normal, porém antenada em tudo o que diz respeito a essa doença, alertando minhas amigas sobre a importância do autoexame, da mamografia antes dos 40 anos, e todos os exames ginecológicos que são inerentes a nós mulheres.
Alerto ainda que o pior de tudo é o medo! Medo de descobrir a doença. Uma vez diagnosticada prematuramente, a cura é total! Então, amigas, não deixem que o medo impere em suas vidas, pois para Deus, tudo é possível! Sou prova viva disso!
Fiquem com Ele e cuidem-se!
Um beijo carinhoso,
Mirian.
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